Lembra quando o Elliot Carver, o vilão de 007: O Amanhã Nunca Morre, queria iniciar uma guerra só para turbinar o ibope do seu jornal? Na época, todo mundo achava aquilo um exagero ridículo. "Um bilionário manipulando a mídia para controlar o mundo? Pfff, viagem."
Pois é. Spoiler: não era viagem. Era só o futuro chegando antes da hora.
O retorno do bilionário malvado nos cinemas não é coincidência. É um reflexo direto do nosso momento cultural. E, honestamente, é a melhor coisa que poderia ter acontecido para o cinema de herói e vilão.
O Reinado do Gênio Bonzinho (ou: Como Aprendemos a Amar o Tony Stark)

Durante anos, a figura do bilionário foi romantizada. O Vale do Silício transformou o "nerd que virou CEO" em ídolo. O cara excêntrico que, se deixassem, salvaria o mundo. O exemplo máximo? Tony Stark.
O Homem de Ferro era o bilionário bonzinho. Ele tinha um arsenal particular, uma armadura que derrubava governos e a moral de que "só um cara bom com um exército particular para de um cara mau com um exército particular". Ele privatizou a paz mundial, lembra? E a gente aplaudia.
O problema é que essa narrativa de "gênio filantropo" começou a cheirar mal. Assim como o leite vencido na sua geladeira.
O Vilão Voltou, e Está Mais Careca e Assustador do Que Nunca

Lex Luthor sempre foi o arquétipo do bilionário vilão. Mas demorou décadas para o cinema acertar. Gene Hackman era muito bobo, Jesse Eisenberg era um Mark Zuckerberg com crise de identidade, e Kevin Spacey... bem, melhor esquecer.
Até que James Gunn colocou Nicholas Hoult no papel em Superman. E aí, finalmente, a ficha caiu. O Luthor de Hoult é arrogante, mesquinho e petulante. Ele não quer salvar o mundo; ele quer que o mundo funcione do jeito dele. E, mais importante: isso ressoa com a gente.
Por quê? Porque a opinião pública sobre os super-ricos mudou. Enquanto a economia aperta, as fortunas deles só crescem. O "visionário" que ia nos salvar virou o "obstáculo" que nos atrapalha.
Lembra quando chamavam Elon Musk de "Tony Stark da vida real"? Pois é. Ninguém mais faz isso.
De James Bond a Vidro Onion: O Círculo se Fecha

Glass Onion: Um Mistério Knives Out não teve vergonha de mostrar o "visionário" como um idiota sortudo que enganou todo mundo. E o mais novo jogo do 007, First Light, traz um vilão que usa uma IA infalível para... bem, para cometer erros e depois encobri-los.
O vilão do game, Nicholas Webb, é a versão 2.0 do Elliot Carver. Os dois querem moldar a realidade ao seu favor. E, no fundo, sempre foi isso que o bilionário na ficção representou: o poder de distorcer o mundo.
A diferença é que, por um tempo, a gente achou que esse poder era legal. Agora, a ficha caiu. E o cinema, como sempre, está refletindo o que a gente sente.
O bilionário vilão não é mais um exagero. É um aviso. E, pela primeira vez em muito tempo, a gente está prestando atenção.
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